Temos 129 visitantes e Nenhum membro online

Introdução

A quarentena pela qual estamos passando me obrigou a promover algumas revisões sobre processos e procedimentos no ensino do desenho. Muito tempo se passou desde a primeira explicação que ofereci ao meu primeiro aluno e meu grande desafio agora é colocar aqui em palavras o pouco que sei.

Depois de tantos anos de trabalho e de constante debate com todos vocês, desenvolvi muitos exercícios, boa parte deles aborda os chamados "cânones" do universo artístico e objetiva o acesso franco a conceitos elaborados. A relação entre os conceitos e as metodologias tende a estreitar laços na sala de aula e a facilitar o trabalho, promovendo uma educação e um aprendizado de qualidade.

Neste momento, valorizar a qualidade do diálogo que sustenta as explicações e a execução dos exercícios é importante. Afinal de contas, não estamos sozinhos e devemos aprimorar nossas capacidades argumentativas enquanto nos desenvolvemos artisticamente. Agora nos resta o desafio de sustentar nossa mente criativa em casa, à distância.

Para que possamos desenvolver um diálogo e visando a alcançar uma linguagem artística, vamos a uma provocação ligada às imagens e sua produção como ideia.

 


- Isto não é um cachimbo

 

 Esta obra foi realizada por um dos maiores nomes do surrealismo, o belga René Magritte (criador de telas memoráveis que intrigam observadores tolinhos até os dias de hoje). Este trabalho é fundamental, pois nos faz pensar sobre a diferença entre a representação de um objeto e o objeto em si. Esta provocação fica patente com os dizeres "Ceci n’est pas une pipe" (Isto não é um cachimbo).

A escrita na obra faz o observador questionar a fronteira da imagem e do real, é uma constatação que parece óbvia, mas foi levantada com autoridade. Trata-se de uma imagem revolucionária no mundo das artes, não por acaso, esta pintura foi cercada de muita polêmica quando divulgada.

Segundo o próprio artista, "O famoso cachimbo... Como as pessoas me censuraram por ele. Contudo, me diga, você pode preenchê-lo com tabaco? Claro que não, é uma mera representação. Caso tivesse escrito no quadro: Isto é um cachimbo, teria mentido."

Seguindo esta linha de raciocínio, o desenho da cabeça humana, ou o método para alcançar tal feito é sempre uma representação do real (ou não real), por mais realista que seu trabalho pareça. A produção artística de um retrato é preenchida por significados ligados à comunicação de uma ideia, seja ela concreta ou não.

 

René François Ghislain Magritte (Lessines, 21 de Novembro de 1898 ― Bruxelas, 15 de Agosto de 1967) foi um dos principais artistas surrealistas belgas

 

Após ter estudado alguns autores clássicos e outros contemporâneos no meio artístico, cheguei mais uma vez à conclusão de que não há consenso no que diz respeito a apenas um único método para representar a cabeça ou o corpo humano... Ou qualquer outro animal no planeta. 
Para estudar e construir a cabeça humana, vamos partir de duas bases geométricas: o círculo e a elipse. Um é mais famoso e o outro não. Penso que isso se deve apenas à falta de estudo por parte de muitos estudantes.

Desde o primeiro dia de aula, conversamos sobre a construção da cabeça humana a partir da elipse, pois acredito que este seja o método mais simples e que possibilita uma atuação franca e ativa por parte do aluno. No entanto, simples não significa fácil. Nessa primeira aula, é comum recebermos pessoas que nunca apontaram um lápis ou que nunca se sentaram diante de uma prancheta. Em outras palavras, pessoas que nunca tiveram contato direto com o desenho, ou que se tiveram, não receberam boa instrução.

Desenhar uma elipse e efetuar as distribuições das localizações proporcionais dos elementos faciais nessa aula e, depois de algumas horas, analisar o resultado é gratificante e revolucionário. Mesmo que depois de alguns meses de trabalho, o aluno volte (talvez com um olhar crítico demais) a esse que foi o seu primeiro contato com a prancheta.

Vamos estudar a cabeça humana de forma simplificada no começo, alcançar alguma maturidade e depois trabalhar os conceitos por meio de métodos mais elaborados, sem nos esquecermos de que o trabalho artístico está além da imagem em si e de que a própria interpretação da imagem não é nada além de uma ilusão, uma construção intelectual.

Construção básica da cabeça humana vista de frente a partir da elipse:

 

1) A elipse é uma figura geométrica plana - isso quer dizer que possui apenas duas dimensões. Comprimento e altura. É comum as pessoas se confundirem e chamarem a dimensão comprimento de largura. Esta figura é simétrica em seus dois eixos perpendiculares, ou seja, as medidas de suas duas dimensões nunca são equivalentes. Ou será mais comprida do que alta, ou será mais alta do que comprida, um círculo amassado!


- na terceira elipse, "proporção para o desenho da cabeça mesocéfala".


A utilização da elipse na construção da cabeça humana é prática e permite planificar e distribuir as respectivas massas, auxiliando na composição da cabeça humana de forma aceitável. Recomendo a leitura e apreciação dos trabalhos dos grandes mestres renascentistas ou do professor Burne Hogarth.

2) A proporção correta da elipse - para começarmos a entender como proceder na construção da cabeça humana, precisamos simplificar algumas questões. Já estudamos em sala de aula alguns dos elementos da estrutura da cabeça e alterações faciais que são comuns a todos nós. De fato existe uma pluralidade de formatos e aparências do crânio, os quais são geralmente classificados de acordo com o índice cefálico proposto por Anders A. Retzius, que foi um professor sueco de anatomia e supervisor do Instituto Karolinska. Esse índice equivale à porcentagem da dimensão da altura de um crânio em relação à metade da dimensão do comprimento. Nessa fase utilizamos três formas básicas: A braquicéfala, cabeças mais robustas; a mesocéfala, cabeças medianas e a dolicocéfala, cabeças mais estreitas.

3) Modelo básico, ou referência - em geral, quando iniciamos o desenho da cabeça humana somos convidados a aceitar um modelo genérico.
Nas palavras do próprio Parramón: "Isso significa imaginar uma cabeça de proporções ideais, que não pertencem a nenhuma pessoa específica e é ao mesmo tempo, um modelo representativo de todas as cabeças do mundo.”




Esta cabeça é construída para ser mesocéfala.

Descrição dos passos na construção a partir da elipse

Vamos praticar.

a) Desenhe uma elipse visando uma cabeça mesocefálica.

b) Desenhe uma linha de simetria vertical que divida e elipse em duas partes iguais.

c) Desenhe um segmento de reta perpendicular em relação à linha de simetria no centro da elipse, dividindo-a em quatro partes iguais.

d) Perceba que a porção superior ao traço horizontal que divide a elipse em duas partes iguais representa a massa craniana e que a porção inferior representa a massa facial.

e) Imaginar o relevo tridimensional da massa óssea acima dos olhos e sob as sobrancelhas e desenhar simultaneamente esses elementos faciais. As sobrancelhas devem ocupar proporcionalmente o espaço dos dois lados da face, devem estar sobre o traço auxiliar horizontal e devem estar equidistantes em relação ao traço de simetria vertical. Ocupando a base da região da massa craniana, entre as sobrancelhas e em sua base, está a glabela. Os olhos, logo abaixo do traço auxiliar horizontal, estão dentro das fossas oculares, centralizados com as sobrancelhas e a meio olho de distância do traço de simetria, totalizando um olho de distânia entre os olhos.

f) O nariz está localizado na região compreendida por metade da distância entre a linha das sobrancelhas e a base da elipse. As narinas são desenhadas exatamente nessa linha horizontal, com a base cartilaginosa do dorso nasal ficando um pouco abaixo da linha. A distância externa do comprimento das narinas deve ter aproximadamente a medida de um olho.

g) A boca está localizada na metade da distância entre a base das narinas e a base da elipse. Ela deve caber em um espaço igual à distância entre as íris dos olhos. Uma mandíbula relaxada pede um traço curvo como base para os lábios, pois assim como a massa que está sob as sobrancelhas, a boca é proeminente.

h) O queixo tem aproximadamente um olho de comprimento. A mandíbula deve ser imaginada com os dentes encaixados, mas sem muita tensão ou excessivo relaxamento. Uma mandíbula relaxada aumenta o espaço entre a mandíbula e o maxilar, consequentemente aumentando a massa facial em relação à massa craniana.

i) O osso do zigomático e sua massa impõem uma importância na forma das laterais da cabeça. Um círculo pode ser imaginado ou esboçado cobrindo toda a lateral da elipse até a linha base da boca. Esse círculo serve de base para a insinuação de seu proeminente volume.

j) As orelhas devem estar alinhadas em toda sua altura com o septo nasal. Seu comprimento é relativo.

k) A massa craniana é mais uniforme e arredondada. A linha do início do couro cabeludo está na metade da distância entre o topo da elipse e a base das sobrancelhas. Para entender seu desenho peculiar, podem-se utilizar as formas das sobrancelhas como guia.

l) Na figura masculina, normalmente o pescoço tem o comprimento da mandíbula, na figura feminina é um pouco mais estreito.

 

Construção básica da cabeça humana vista de frente a partir do círculo:

O método para construir a cabeça humana a partir da elipse não é o único, existem outros tantos. Falaremos agora do círculo como base para a construção da cabeça.

1) Duas dimensões equivalentes - Na geometria euclidiana, uma circunferência é o lugar geométrico dos pontos equidistantes de um ponto fixo em um plano. O ponto fixo é o centro e a equidistância é o raio da circunferência.

O círculo possui relativa eficiência para o projeto da cabeça, principalmente quando essa é vista de frente, independentemente do ângulo, mas na construção em perspectiva da cabeça perde-se massa craniana. Para corrigir isso, é necessário acrescentar massa. Esse defeito é compensado com melhor visualização e projeção dos elementos faciais mesmo distorcidos em um movimento de perspectiva forçada. Isso se deve ao efeito convincente das linhas auxiliares sobrepostas na circunferência, criando uma ilusão de esfericidade.

2) Índice cefálico – As proporções da anatomorfologia do índice cefálico não podem ser alcançadas com o método da construção da cabeça humana utilizando apenas o círculo. A ideia sempre foi fazer uso de figuras geométricas para auxiliar o projeto, logo, no caso do desenho de orgânicos, elas servem apenas como referência para uma melhor visualização das localizações de todas as complexidades do rosto.

Portanto, para não perdermos essa importante característica que reside em nossa grande família que é a humanidade, é necessário amassar ou esticar toda a estrutura. Nesse caso, você já deve ter percebido que o círculo irá se transformar em uma elipse. Independentemente disso, este é um método eficiente que permite uma infinidade de intervenções.

Para realizar este exercício você deve simplesmente desenhar o círculo, ignorando as diferentes anatomorfologias do crânio.


 

Descrição dos passos na construção a partir do círculo
Vamos praticar.

a) Desenhe um círculo, em seguida, desenhe dois segmentos de reta perpendiculares passando pelo centro, dividindo o círculo em quatro partes iguais.

b) Desenhe um quadrado ao redor do círculo. Divida os dois quadrantes superiores em três partes iguais com linhas horizontais. Faça o mesmo com os dois quadrantes inferiores. Você terá um quadrado por fora do círculo e outro por dentro.

c) Faça dois cortes verticais nas laterais no círculo, que deve ser imaginado como se fosse uma esfera, uma laranja se você preferir. Esses cortes representam as laterais estreitadas da massa craniana, as têmporas.

d) O topo desse quadrado interno é onde será desenhada a linha do couro cabeludo e a base é onde serão desenhadas as narinas.

e) A altura do nariz, ou a metade do quadrado interno, receberá a massa da mandíbula.

d) A linha dos olhos está localizada na metade da distância entre o topo de nossa estrutura e a base.

e) As orelhas têm a mesma altura do nariz e estão alinhadas com ele. As sobrancelhas devem ser desenhadas na metade do quadrado interno e abaixo dessa linha.