Temos 124 visitantes e Nenhum membro online

 Certo lobo, em uma ensolarada tarde, faminto que estava, viu um belo cão, bem nutrido, limpo, com o pelo escovado. Ficou tentado a atacá-lo para aliviar a fome, mas percebeu que o cão, pleno de saúde e vigor, não seria uma presa fácil. O lobo se aproximou e o cumprimentou, pondo de lado sua costumeira insolência. Mostrou-se sinceramente admirado pela boa vida que o cão levava junto de seu dono.

- Mas você também pode levar uma vida boa, assim como eu. Abandone a floresta, vá viver entre os homens e seja feliz. – disse o cão.

- É mesmo? E o que devo fazer entre os homens? - perguntou o lobo.

- Quase nada. Somente guardar a propriedade, pôr a correr os pedintes, fazer agrados aos donos... Coisas assim.

O lobo já se via morando nos jardins de uma casa esplêndida e tranquila, sem saudades dos tempos quando tinha de brigar muito para sobreviver na floresta. Então, reparou em algo em volta do pescoço do domesticado cão.

- E o que é isto?

- Não é nada demais, é somente uma coleira. Meu dono a usa quando quer me prender.

- Quer dizer que você não é livre para ir onde desejar?

- Claro que não. Tenho dono. Mas de que me serviria ser livre?

- Pois faça bom proveito de sua boa vida! - Desejou o lobo, disparando para a floresta. E até hoje continua a correr.

 

Fábulas de La Fontaine

ilustração de Gustave Doré