{"id":1381,"date":"2022-04-15T18:43:06","date_gmt":"2022-04-15T21:43:06","guid":{"rendered":"https:\/\/alemdaimagem.com.br\/?p=1381"},"modified":"2026-08-24T10:44:51","modified_gmt":"2026-08-24T13:44:51","slug":"mimesis-e-poiesis-fundamentos-conceituais-e-implicacoes-esteticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alemdaimagem.com.br\/?p=1381","title":{"rendered":"M\u00edmesis e Po\u00edesis: fundamentos conceituais e implica\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\"><em>Por Francisco Alison, 2022-2026.<\/em><\/p>\n<p>Os conceitos de <em>m\u00edmesis<\/em> (\u03bc\u03af\u03bc\u03b7\u03c3\u03b9\u03c2) e <em>po\u00edesis<\/em> (\u03c0\u03bf\u03af\u03b7\u03c3\u03b9\u03c2) constituem categorias fundamentais da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental para a compreens\u00e3o dos processos de representa\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Desde a Antiguidade cl\u00e1ssica, ambos os conceitos foram objeto de interpreta\u00e7\u00f5es distintas, especialmente nas obras de Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, influenciando profundamente a teoria est\u00e9tica, a filosofia da arte, a cr\u00edtica liter\u00e1ria e, posteriormente, os estudos contempor\u00e2neos sobre linguagem, cultura e produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<!--more--><\/p>\n<p class=\"western\">Etimologicamente, o termo <em>m\u00edmesis<\/em> deriva do verbo grego <em>mime\u00eesthai<\/em>, cujo significado remete aos atos de imitar, representar ou reproduzir. Entretanto, reduzir a m\u00edmesis \u00e0 simples c\u00f3pia da realidade constitui uma simplifica\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel com a complexidade hist\u00f3rica do conceito. Em Plat\u00e3o, particularmente nos di\u00e1logos <em>A Rep\u00fablica<\/em> e <em>\u00cdon<\/em>, a m\u00edmesis \u00e9 compreendida como uma representa\u00e7\u00e3o que ocupa um n\u00edvel ontologicamente inferior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Ideias. A obra art\u00edstica seria uma c\u00f3pia sens\u00edvel de objetos que, por sua vez, j\u00e1 constituem c\u00f3pias imperfeitas das Formas intelig\u00edveis. Consequentemente, a atividade art\u00edstica produziria um afastamento da verdade, raz\u00e3o pela qual Plat\u00e3o manifesta reservas quanto ao papel educativo da poesia e das artes imitativas.<\/p>\n<p class=\"western\">Arist\u00f3teles, por outro lado, promove uma significativa reformula\u00e7\u00e3o do conceito na <em>Po\u00e9tica<\/em>. A m\u00edmesis deixa de ser entendida como mera reprodu\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica da realidade para ser concebida como uma atividade cognitiva e criativa. Segundo Arist\u00f3teles, os seres humanos possuem uma inclina\u00e7\u00e3o natural \u00e0 imita\u00e7\u00e3o, sendo precisamente por meio dela que desenvolvem processos de aprendizagem e elabora\u00e7\u00e3o do conhecimento. A arte n\u00e3o reproduz simplesmente os acontecimentos particulares, mas representa a\u00e7\u00f5es humanas segundo crit\u00e9rios de verossimilhan\u00e7a (<em>eik\u00f3s<\/em>) e necessidade (<em>an\u00e1nke<\/em>), produzindo conhecimento acerca do universal. Nesse contexto, a representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica adquire fun\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica, \u00e9tica e est\u00e9tica simultaneamente.<\/p>\n<p class=\"western\">Complementarmente, o conceito de <em>po\u00edesis<\/em> origina-se do verbo grego <em>poie\u00een<\/em>, que significa &#8220;fazer&#8221;, &#8220;produzir&#8221; ou &#8220;criar&#8221;. Em sentido amplo, po\u00edesis refere-se ao processo de trazer algo \u00e0 exist\u00eancia, isto \u00e9, \u00e0 passagem do n\u00e3o-ser ao ser mediante um ato de produ\u00e7\u00e3o. Em Arist\u00f3teles, a po\u00edesis distingue-se da <em>pr\u00e1xis<\/em> na medida em que corresponde a uma atividade orientada para a produ\u00e7\u00e3o de um objeto externo ao agente, enquanto a pr\u00e1xis encontra seu fim na pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\">A tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica posterior ampliou significativamente a compreens\u00e3o da po\u00edesis. Em Martin Heidegger, especialmente no ensaio &#8220;A quest\u00e3o da t\u00e9cnica&#8221;, a po\u00edesis recupera seu sentido origin\u00e1rio de desvelamento (<em>al\u00e9theia<\/em>), caracterizando-se como um modo de fazer emergir aquilo que estava oculto. A cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, nesse horizonte interpretativo, n\u00e3o consiste apenas na fabrica\u00e7\u00e3o de objetos, mas constitui um acontecimento ontol\u00f3gico por meio do qual a verdade se manifesta.<\/p>\n<p class=\"western\">Sob a perspectiva da est\u00e9tica contempor\u00e2nea, m\u00edmesis e po\u00edesis deixam de ser categorias excludentes para constitu\u00edrem dimens\u00f5es complementares da experi\u00eancia art\u00edstica. A representa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e sempre algum grau de elabora\u00e7\u00e3o criativa, ao passo que todo processo criativo estabelece rela\u00e7\u00f5es, expl\u00edcitas ou impl\u00edcitas, com formas preexistentes de representa\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, a obra de arte configura-se simultaneamente como interpreta\u00e7\u00e3o do real e produ\u00e7\u00e3o de novas possibilidades de sentido.<\/p>\n<p class=\"western\">Na teoria liter\u00e1ria e nos estudos culturais, o conceito de m\u00edmesis passou a incorporar abordagens que enfatizam seu car\u00e1ter discursivo e construtivo. A representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponde \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o objetiva da realidade, mas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica mediada por conven\u00e7\u00f5es culturais, hist\u00f3ricas e lingu\u00edsticas. Autores como Erich Auerbach demonstram que as formas de representa\u00e7\u00e3o variam conforme os contextos hist\u00f3ricos, revelando diferentes modos de compreender a rela\u00e7\u00e3o entre linguagem e realidade.<\/p>\n<p class=\"western\">Por sua vez, a po\u00edesis tamb\u00e9m foi ressignificada pelos estudos contempor\u00e2neos, passando a designar processos criativos que extrapolam o dom\u00ednio estritamente art\u00edstico e abrangem pr\u00e1ticas sociais, pol\u00edticas e tecnol\u00f3gicas. Em diversas correntes da filosofia contempor\u00e2nea, a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 compreendida como produ\u00e7\u00e3o de novas formas de exist\u00eancia, novos modos de subjetiva\u00e7\u00e3o e novas configura\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas.<\/p>\n<p class=\"western\">Em s\u00edntese, m\u00edmesis e po\u00edesis constituem categorias complementares para a compreens\u00e3o da experi\u00eancia est\u00e9tica. Enquanto a m\u00edmesis enfatiza os processos de representa\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o e configura\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da realidade, a po\u00edesis evidencia a dimens\u00e3o produtiva, inventiva e transformadora da cria\u00e7\u00e3o. A articula\u00e7\u00e3o entre ambos os conceitos permite compreender a arte n\u00e3o apenas como reflexo do mundo, mas como atividade capaz de produzir novos horizontes de significa\u00e7\u00e3o e novas formas de experi\u00eancia.<\/p>\n<p><em>Este texto ou programa n\u00e3o pode ser reproduzido de nenhuma forma sem autoriza\u00e7\u00e3o expressa do autor.<\/em><\/p>\n<h3 class=\"western\">Bibliografia b\u00e1sica<\/h3>\n<ul>\n<li>\n<p class=\"western\">A Rep\u00fablica. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, diversas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"western\">Po\u00e9tica. Tradu\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e notas de Eudoro de Sousa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, diversas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"western\">Metaf\u00edsica, por Arist\u00f3teles, ALEMAR S.A.S.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"western\">A quest\u00e3o da t\u00e9cnica. In: <em>Ensaios e Confer\u00eancias<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"western\">M\u00edmesis: a representa\u00e7\u00e3o da realidade na literatura ocidental. S\u00e3o Paulo: Perspectiva.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"western\">Est\u00e9tica: A Peculiaridade do Est\u00e9tico (Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs): Obra fundamental publicada, Boitempo Editorial<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"western\">A obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica. Diversas colet\u00e2neas.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"western\">A partilha do sens\u00edvel. S\u00e3o Paulo: Editora 34.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p class=\"western\"><strong>Outras observa\u00e7\u00f5es:<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Como ponto de partida para uma observa\u00e7\u00e3o mais metodol\u00f3gica: tanto <em>m\u00edmesis<\/em> quanto <em>po\u00edesis<\/em> s\u00e3o conceitos cuja compreens\u00e3o depende bastante do autor e do contexto hist\u00f3rico. Em muitos trabalhos acad\u00eamicos, ocorre o equ\u00edvoco de trat\u00e1-los como defini\u00e7\u00f5es est\u00e1veis, como pude perceber. Na realidade, eles sofrem importantes reformula\u00e7\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria da filosofia.<\/p>\n<p class=\"western\">H\u00e1 ainda um aspecto que considero particularmente f\u00e9rtil: em Arist\u00f3teles, mais uma vez, m\u00edmesis e po\u00edesis n\u00e3o s\u00e3o conceitos opostos. A <em>po\u00edesis<\/em> \u00e9 o processo criativo que produz a obra, enquanto a <em>m\u00edmesis<\/em> caracteriza o modo pelo qual essa obra representa ou configura a\u00e7\u00f5es humanas. Em muitos textos introdut\u00f3rios, esses termos aparecem como se um significasse &#8220;copiar&#8221; e o outro &#8220;criar&#8221;, estabelecendo uma oposi\u00e7\u00e3o r\u00edgida que n\u00e3o corresponde exatamente ao pensamento aristot\u00e9lico.<\/p>\n<p class=\"western\">A discuss\u00e3o sobre m\u00edmesis e po\u00edesis atravessa mais de dois mil\u00eanios de pensamento ocidental e continua extremamente atual, especialmente quando relacionada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, \u00e0s tecnologias digitais e at\u00e9 mesmo a popularmente chamada intelig\u00eancia artificial. \u00c9 um tema de enorme riqueza filos\u00f3fica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Francisco Alison, 2022-2026. 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