Por Francisco Alison, 2022-2026.
Os conceitos de mímesis (μίμησις) e poíesis (ποίησις) constituem categorias fundamentais da tradição filosófica ocidental para a compreensão dos processos de representação, criação e produção artística. Desde a Antiguidade clássica, ambos os conceitos foram objeto de interpretações distintas, especialmente nas obras de Platão e Aristóteles, influenciando profundamente a teoria estética, a filosofia da arte, a crítica literária e, posteriormente, os estudos contemporâneos sobre linguagem, cultura e produção simbólica.
Etimologicamente, o termo mímesis deriva do verbo grego mimeîsthai, cujo significado remete aos atos de imitar, representar ou reproduzir. Entretanto, reduzir a mímesis à simples cópia da realidade constitui uma simplificação incompatível com a complexidade histórica do conceito. Em Platão, particularmente nos diálogos A República e Íon, a mímesis é compreendida como uma representação que ocupa um nível ontologicamente inferior em relação às Ideias. A obra artística seria uma cópia sensível de objetos que, por sua vez, já constituem cópias imperfeitas das Formas inteligíveis. Consequentemente, a atividade artística produziria um afastamento da verdade, razão pela qual Platão manifesta reservas quanto ao papel educativo da poesia e das artes imitativas.
Aristóteles, por outro lado, promove uma significativa reformulação do conceito na Poética. A mímesis deixa de ser entendida como mera reprodução mecânica da realidade para ser concebida como uma atividade cognitiva e criativa. Segundo Aristóteles, os seres humanos possuem uma inclinação natural à imitação, sendo precisamente por meio dela que desenvolvem processos de aprendizagem e elaboração do conhecimento. A arte não reproduz simplesmente os acontecimentos particulares, mas representa ações humanas segundo critérios de verossimilhança (eikós) e necessidade (anánke), produzindo conhecimento acerca do universal. Nesse contexto, a representação artística adquire função epistemológica, ética e estética simultaneamente.
Complementarmente, o conceito de poíesis origina-se do verbo grego poieîn, que significa “fazer”, “produzir” ou “criar”. Em sentido amplo, poíesis refere-se ao processo de trazer algo à existência, isto é, à passagem do não-ser ao ser mediante um ato de produção. Em Aristóteles, a poíesis distingue-se da práxis na medida em que corresponde a uma atividade orientada para a produção de um objeto externo ao agente, enquanto a práxis encontra seu fim na própria ação.
A tradição filosófica posterior ampliou significativamente a compreensão da poíesis. Em Martin Heidegger, especialmente no ensaio “A questão da técnica”, a poíesis recupera seu sentido originário de desvelamento (alétheia), caracterizando-se como um modo de fazer emergir aquilo que estava oculto. A criação artística, nesse horizonte interpretativo, não consiste apenas na fabricação de objetos, mas constitui um acontecimento ontológico por meio do qual a verdade se manifesta.
Sob a perspectiva da estética contemporânea, mímesis e poíesis deixam de ser categorias excludentes para constituírem dimensões complementares da experiência artística. A representação pressupõe sempre algum grau de elaboração criativa, ao passo que todo processo criativo estabelece relações, explícitas ou implícitas, com formas preexistentes de representação. Dessa maneira, a obra de arte configura-se simultaneamente como interpretação do real e produção de novas possibilidades de sentido.
Na teoria literária e nos estudos culturais, o conceito de mímesis passou a incorporar abordagens que enfatizam seu caráter discursivo e construtivo. A representação não corresponde à reprodução objetiva da realidade, mas à construção simbólica mediada por convenções culturais, históricas e linguísticas. Autores como Erich Auerbach demonstram que as formas de representação variam conforme os contextos históricos, revelando diferentes modos de compreender a relação entre linguagem e realidade.
Por sua vez, a poíesis também foi ressignificada pelos estudos contemporâneos, passando a designar processos criativos que extrapolam o domínio estritamente artístico e abrangem práticas sociais, políticas e tecnológicas. Em diversas correntes da filosofia contemporânea, a criação é compreendida como produção de novas formas de existência, novos modos de subjetivação e novas configurações simbólicas.
Em síntese, mímesis e poíesis constituem categorias complementares para a compreensão da experiência estética. Enquanto a mímesis enfatiza os processos de representação, interpretação e configuração simbólica da realidade, a poíesis evidencia a dimensão produtiva, inventiva e transformadora da criação. A articulação entre ambos os conceitos permite compreender a arte não apenas como reflexo do mundo, mas como atividade capaz de produzir novos horizontes de significação e novas formas de experiência.
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Bibliografia básica
A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, diversas edições.
Poética. Tradução, introdução e notas de Eudoro de Sousa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, diversas edições.
Metafísica, por Aristóteles, ALEMAR S.A.S.
A questão da técnica. In: Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes.
Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva.
Estética: A Peculiaridade do Estético (György Lukács): Obra fundamental publicada, Boitempo Editorial
A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Diversas coletâneas.
A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34.
Outras observações:
Como ponto de partida para uma observação mais metodológica: tanto mímesis quanto poíesis são conceitos cuja compreensão depende bastante do autor e do contexto histórico. Em muitos trabalhos acadêmicos, ocorre o equívoco de tratá-los como definições estáveis, como pude perceber. Na realidade, eles sofrem importantes reformulações ao longo da história da filosofia.
Há ainda um aspecto que considero particularmente fértil: em Aristóteles, mais uma vez, mímesis e poíesis não são conceitos opostos. A poíesis é o processo criativo que produz a obra, enquanto a mímesis caracteriza o modo pelo qual essa obra representa ou configura ações humanas. Em muitos textos introdutórios, esses termos aparecem como se um significasse “copiar” e o outro “criar”, estabelecendo uma oposição rígida que não corresponde exatamente ao pensamento aristotélico.
A discussão sobre mímesis e poíesis atravessa mais de dois milênios de pensamento ocidental e continua extremamente atual, especialmente quando relacionada à criação artística, às tecnologias digitais e até mesmo a popularmente chamada inteligência artificial. É um tema de enorme riqueza filosófica.
